Diversidade

Conhecer o desconhecido

É natural do ser humano rejeitar – em primeiro momento – o que não é parecido ou igual a si mesmo, principalmente se for muito diferente. E para muitos, é difícil lidar com isso por desentenderem diretamente de autoconhecimento.

“É que Narciso acha feio o que não é espelho” – escreveu Caetano Veloso na letra de Sampa, ao descrever o encontro em que conheceu Os Mutantes, nos anos 60.

Arnaldo, Rita e Sérgio eram jovens, desbocados, coloridos, com muita energia e à frente de seu tempo. Os Mutantes estavam na hora certa, no momento certo e com as conexões certas. Foi desse encontro, onde Caetano e Os Mutantes – junto de Gilberto Gil e outros grandes – que deu-se início a um dos movimentos mais importantes da arte, música e vida no brasil: O Tropicalismo.

Falando sobre o que Caetano escreveu, é possível ter diversas interpretações dessa sensação de conhecer o desconhecido. É natural do ser humano rejeitar – em primeiro momento – o que não é parecido ou igual a si mesmo, principalmente se for muito diferente. E para muitos, é difícil lidar com isso por desentenderem diretamente de autoconhecimento.

De fato, a internet das coisas mudou bastante isso. Antes, nossas conexões eram bastante limitadas, muitas vezes ao nosso ciclo familiar, parentesco próximo ou pessoas da cidade. Hoje, por exemplo, é possível acompanhar ao vivo o que acontece em uma praia da Indonésia ou fazer um tour no Museu de Arte Moderna de Nova York, e ter contato com as principais expressões artísticas de nossa história. As fronteiras entre o conhecimento e o desconhecido estão cada vez menores.

A palavra narcisismo – de Narciso – tem origem em um personagem da mitologia grega que foi profetizado à vida eterna, desde que não contemplasse a sua própria beleza. Porém, Narciso era muito orgulhoso e arrogante, motivos para a deusa Némesis (Afrodite) o condenar a apaixonar-se por si mesmo ao ver o seu próprio reflexo nas águas limpas de um rio e, por não poder unir-se a sua auto paixão, virou mortal, definhando ao lado do rio, olhando-se nas águas até morrer, onde Afrodite o transformou na flor de açafrão, conhecida também como narciso.

Da mitologia aos dias de hoje muita coisa mudou, inclusive nossa capacidade de lidar com novas conexões. A compreensão sobre as diferenças é proporcional à medida em que elas crescem, permitindo uma ampliação natural do nosso ser e de nossas conexões. Acredito que a beleza está na diferença, justamente por entender diariamente que nada é igual a nada, principalmente quando se leva em conta tempo e espaço. Ambos passam.

Acredito também que viver feliz depende diretamente da compreensão das nossas diferenças. Saber que pessoas, processos, recursos, espaços e momentos são diferentes nos faz mais passíveis ao respeito, atitude essencial para que qualquer tipo de relacionamento funcione, dure e se desenvolva ao passar do tempo e dos espaços... ah os espaços que ainda procuro...

Por fim, no início da música, Caetano diz: Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruzo a Ipiranga e a avenida São João. É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi, da dura poesia concreta de tuas esquinas, da deselegância discreta de tuas meninas.

Nessa "alguma coisa" que acontece quando há um cruzamento entre as avenidas onde Os Mutantes passam; onde criam-se relações entre as conexões que se cruzam e onde há uma disruptura de sentimentos, mindsets e de si mesmo, é que está escondido o paraíso.. e onde com certeza podemos utilizá-la como uma definição bonita para Respeito. Caetano respeitou os Mutantes, os conheceu, os amou, e assim, criaram coisas incríveis que hoje nos inspiram a reproduzir esse sentimento com quem também amamos.

Posts anteriores

Inspiração

Uma vida criativa com música e café no Quarto

A rotina de um Criativo é composta de muitos métodos, recursos, sentimentos e coisas que, dentre elas, o café e a música ganham um espaço significativo.

Inspiração

Boas raízes em 2018

Uma planta verde, símbolo de fertilidade, paz, fibra e resultados, o Bambu Chinês é um exemplo que devemos tomar para a vida, compreendendo a importância da paciência, fé e persistência em nossa busca por resultados, acreditando que dedicação é a base para crescermos fortes e vislumbrarmos do alto as mais lindas “coisas da criação”.